Origens de um encontro semanal
Toda quinta-feira, antes do sol esquentar o chão de pedra do centro histórico de São Vicente do Seridó, o Mercado Velho começa a ganhar vida. Primeiro chegam os caminhoneiros com caixas de tomate, pimentão e maxixe vindos da zona rural. Depois, as feirantes desenrolam lonas coloridas, penduram sacos de anúncio e acendem os fogões de lenha para preparar o café que oferecem aos vizinhos de barraca.
A Feira do Mercado Velho nasceu em 1946, quando um grupo de agricultores familiares decidiu vender excedentes de produção num terreno em frente à antiga casa de farinha. Não havia regulamentação, nem cobertura — apenas mesas de madeira e a disposição de quem precisava comprar barato e de quem precisava vender para completar a renda do mês.
"Minha avó dizia que a feira era o banco do pobre", conta Zélia Ferreira, 62 anos, que herdou a barraca de verduras da mãe. "Quem não tinha dinheiro para pagar levava fiado e acertava na semana seguinte. Isso ainda acontece, viu?"
As barracas e seus donos
Hoje, a feira abriga 47 barracas fixas e cerca de 30 itinerantes que ocupam espaço nas laterais. Os produtos seguem a estação: em junho, abundam macaxeira, milho verde e manga rosa; em dezembro, melão, goiaba e queijos da serra. Mas o que diferencia o Mercado Velho de qualquer supermercado não é a variedade — é a relação.
Seu Antônio, conhecido como Tonho do Queijo, fabrica coalho há 45 anos numa propriedade a 12 quilômetros da cidade. Ele conhece pelo nome cada cliente que compra suas peças de meio quilo e sabe quem prefere o queijo mais salgado para assar na brasa. "No supermercado, você pega o que tem na prateleira. Aqui, eu corto do jeito que a pessoa quer", diz.
A barraca da Dona Creu é referência em temperos e ervas medicinais. Ela aprendeu com a avó a identificar alecrim, capim-santo e mentrasto, e montou um pequeno caderno de receitas que entrega de graça para quem compra. "Feira não é só compra e venda. É troca de saber", explica.
Gerações na mesma lona
Um levantamento informal feito pela associação dos feirantes revelou que 60% das barracas são administradas por famílias com pelo menos duas gerações envolvidas. Os jovens que poderiam migrar para trabalhos na capital muitas vezes escolhem ficar e modernizar o negócio familiar: criam perfis em redes sociais, aceitam Pix e organizam entregas para bairros mais afastados.
Ricardo, 28 anos, filho de feirantes de frutas, montou um sistema de encomendas pelo WhatsApp durante a pandemia e manteve depois porque funcionou. "A feira não precisa competir com o supermercado no que ele faz bem. Precisa ser o que só ela consegue ser: perto, humana, fresca."
Desafios modernos
A chegada de duas redes de supermercados na década de 2000 ameaçou o Mercado Velho. Preços competitivos, ar-condicionado e estacionamento puxaram clientes que antes faziam a feira semanal inteira no centro. A associação reagiu com campanhas de valorização do produto local, convênio com a prefeitura para melhorar a cobertura das barracas e criação de um selo "Feito no Seridó" para identificar produção regional.
Ainda há dificuldades. A infraestrutura de saneamento é precária, e nos dias de chuva forte parte da feira precisa fechar. Feirantes mais velhos reclamam da burocracia para obter licenças e do custo crescente dos insumos. Mas o número de barracas se manteve estável nos últimos cinco anos — sinal de que a feira encontrou seu equilíbrio.
O futuro da feira
Para os 80 anos, a associação organizou uma semana de festividades: música regional, concurso de maiores compradores fiéis e um livro de memórias com depoimentos de feirantes. A prefeitura prometeu pavimentar o entorno e instalar iluminação LED, promessas que os feirantes ouvem com cautela otimista.
O que nenhuma autoridade pode prometer — e que a feira já tem — é o que Zélia Ferreira resume na barraca de verduras: "Aqui ninguém é cliente. É vizinho." No interior brasileiro, onde distâncias são grandes e laços são estreitos, essa diferença vale mais que qualquer desconto.