O contexto de Sítio do Meio

Sítio do Meio fica a 34 quilômetros do centro de Juazeiro, na Bahia, numa estrada de terra que fica impraticável durante a chuva forte. A comunidade tem cerca de 800 habitantes, uma escola de três salas, um posto de saúde que abre duas vezes por semana e nenhuma farmácia. Para consultas especializadas, exames ou medicamentos mais complexos, os moradores precisam ir à cidade — gasto de tempo e dinheiro que muitas famílias não conseguem absorver.

Foi nesse cenário que, em 2022, um grupo de 14 mulheres decidiu fundar a Associação Comunitária Raízes. O nome não foi escolhido por acaso: todas eram mães, avós ou cuidadoras que há anos faziam o trabalho invisível de levar vizinhos ao médico, buscar remédio emprestado e cuidar de crianças quando os pais precisavam trabalhar no campo.

"A gente já fazia tudo isso de graça e sem nome", diz Francisca Souza, 54 anos, presidente da associação. "Faltava organizar para que virasse direito, não favor."

A organização que nasceu da necessidade

A Raízes começou com três frentes: saúde preventiva, apoio a gestantes e idosos, e articulação com o poder público. A primeira conquista foi um convênio informal com um técnico de enfermagem aposentado que aceitou fazer visitas quinzenais para aferir pressão, glicemia e orientar sobre higiene e alimentação.

As associadas montaram uma planilha de moradores com condições crônicas — hipertensão, diabetes, problemas cardíacos — e organizaram visitas domiciliares em rodízio. Quem sabia ler ajudava quem não sabia a entender receitas. Quem tinha transporte levava quem precisava ir à cidade para exames agendados com antecedência.

Formação e autonomia

Em 2023, a associação conseguiu uma parceria com a universidade estadual para oferecer curso de agentes comunitárias de saúde dentro da própria comunidade. Vinte e uma mulheres se formaram, incluindo cinco jovens de 18 a 25 anos que antes não tinham perspectiva de trabalho local. Hoje, três delas atuam como agentes remuneradas pelo município — mas continuam reunindo-se com a Raízes toda quarta-feira à noite.

O espaço da associação é a antiga sala de aula desativada da escola, cedida pela prefeitura após meses de ofícios. Lá funcionam o arquivo de prontuários simplificados, o estoque de medicamentos básicos doados e o ponto de encontro para oficinas sobre aleitamento materno, prevenção de dengue e hortas comunitárias.

Resultados que aparecem nos números

Os dados coletados pela associação mostram mudanças concretas. Entre 2023 e 2025, o número de idosos que faziam deslocamento mensal para Juazeiro caiu de 47 para 19 — os casos restantes são aqueles que precisam de especialistas não disponíveis localmente. A adesão ao pré-natal completo entre gestantes da comunidade subiu de 60% para 92%. E o tempo médio de resposta a emergências de saúde diminuiu porque a associação mantém uma lista atualizada de quem tem veículo e quem sabe primeiros socorros.

Os resultados chamaram atenção da secretaria municipal de saúde, que passou a enviar equipe de vacinação com prioridade para Sítio do Meio e a incluir a comunidade no calendário ampliado do posto. A associação negocia agora a instalação de uma farmácia popular no antigo depósito da escola.

Lições para outras comunidades

O modelo da Raízes não é replicável com cópia e cola — cada comunidade tem sua história. Mas Francisca e as demais associadas identificam alguns elementos que consideram essenciais: liderança compartilhada (nenhuma decisão importante é tomada por uma pessoa só), registro escrito de tudo ( atas, listas, relatórios), e persistência na articulação com órgãos públicos sem depender de favores políticos.

"A gente aprendeu que direito não cai do céu", resume Cleide Andrade, vice-presidenta. "Cai no papel da ata, no ofício protocolado, na reunião que você vai mesmo cansada depois de um dia inteiro no roçado."

A Associação Raízes completa quatro anos em setembro de 2026 com uma festa simples: chá compartilhado, roda de conversa e a entrega de um relatório anual para a comunidade. Não haverá discurso de autoridade — a menos que alguma aceite o convite. O protagonismo, como sempre, será das mulheres que transformaram cuidado em política e política em cuidado.